REVERSO

Do sabor lascivo que me embota a boca ao calor
furtivo que me ata à forca
Há um intervalo frijo à cercar roca
tecendo o fino fio dessa existência oca
/--------------/
São rajadas que me escapam pelos olhos
embrazados como dois sóis, flagelo do que vejo
Mas escondem águas mornas que não
encantam, indigno ensejo
Já não sei se sou a fúria plástica que ama o
próprio desejo ou uma criança cega desejando
tudo que vejo.
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FAMÍLIA

Desata o nó e a corda densa
onde pende o quadro alheio a dança
Cansa...
Cessa o coro, de volta a trança
É fria a vaga labuta
É eterna a rija trança
duas das cordas me custam a estirpe
A outra carrego presa ao ventre
Sangra...

As luzes e as vozes não me pesam mais que o físico
O real é sempre mais amargo, intenso, vivo
anseio esquálido teu doce alento
para que breve seja a algoz liberdade.
Que repouse fresca ao meu lado a amarra
e eu encerre firme tão inútil batalha.

CAPITAL

Na enorme cova que a nós sepulta
da alvorada da vida ao leito de morte
opção não resta se não a fria luta
para aqueles que dela nâo herdaram a sorte

Se há quem ostente de abastado a alcunha
é porque padecem outros para lhe ornamentar as vestes
pobre o "cavaleiro da triste figura"
empatia crua a emoldurada em preces

Segue a prole a sangrar em vida
enquanto de cima vangloriam-se os porcos
mas há de bradar antes que finde-se a sina
o povo desperto, "Felicidade ou morte!"

 

BRISA

 

Devolvo a ti todo amor que possuo,
digo devolvo porque não posso dar 
o que não fiz senão herdar, 
já que não houve escolha.
Cubro-te com minhas promessas 
que embora poucas são o que tenho,
Apenas elas...
Travo comigo uma enorme batalha 
para não adorna-la com os clichês que o amor me pede, 
daqueles que todos os amantes dizem as duzias...
Para você não, você não merece menos que o inédito...
O que é metade não lhe cai bem
Você quem reescreveu meus dias de maneira terna
e que transmutou meus abismos em quietude
e minhas diligências em conquistas...
De olhos fechados repouso sobre seus braços porque
entre todas as certezas, a unica que me convém
é que de mim, teu por inteiro, 
seja feita apenas a tua vontade.

SANGRIA

Na estrada que vazia, pedra
caminhava lento, murcho e soturno
Era ao chão a quem se valia a terra
úmido e quente o folego noturno

Na sangria matina de pé e vigilante
rasga a terra a ferro frio como quem marca o amante
conduz na valsa triste a esperança de uma raça
já que nesta dança rija a fome enfim se aparta

Seja por reflexo ou talento inato
Reconhecida seja a bravura de quem luta desde o parto
Em terra de tão variada gente e tipo
há ainda quem sangre todos os dias a viver do oficio

DIVINA

aproximou-se calada, sorrateira
e lançando seu dedo na superfície dos lábios
congelou quase que por eterno o momento
era feito uma fotografia
a luz esculpia seus contornos de certa forma homogênios
e dada a natureza da situação a admiração era até involuntária
mirou-se no espelho velho do seu quarto que já a muito a capturava
era toda ela ali representada por uma imagem muda,
molhada
todas as suas cores finamente acentuadas,
refletiam de forma erotizada sua inocência jovial
era ela toda humana
carregava no olhar toda a sorte de pecados
vestia nos olhos uma certa dureza que a distinguia das demais
fora desenhada pela vida
e entregava-se as casualidades como dava-se aos demais
era completamente viva, machucada e real
fora marcada por muitos nomes
prostituta, meretriz,
ou qualquer outro nome que venha banhado na acidez da moral
mas não passavam de rótulos, disso ela sabia
tudo pra ela era fugaz,
tudo era apenas rotina
até a sua beleza, trivial

LIDA

Trazia no corpo certa marca dura...
A vida.
E que mesmo manchada sangra, sofrida
Passa desapercebida e tropega a lida,
com a falsa missão de alimentar
E que mesmo estando fraco ostenta,
nas mãos cansadas a ferramenta
que não faz senão enriquecer as mãos de quem tudo já possui.
E que esta injusta roda, a viva
encarregue-se dessa gente fraca, omissa
e devolva a cada qual o que melhor lhes caber.

CONSOLAÇÃO

Amélias de punhos cerrados
Sois agora contentes!
O que antes jazia calado, mostra-se agora!
Cerra os dentes...
Ao irromper o repouso que a santidade justificava
brinda agora com o gozo que a estatística travava.
Não em unidade era antes vista
Agora o coletivo galga acrescer a lista
Quão gigante seja o ego que te sufoque em fúria
A violência sucumbe a teus inatos reflexos
Tua luta diária para o que por direito deveria ser simples
resgata a nossa história de um passado triste
Seja o que quiseres e ainda assim será para nós lanterna
A tua dureza viva ilustra a tua vida...
GUERRA!

GROOVE

Com seus grosseiros graves ecoa onde imperava o silencio
Não sobrepõe palavra, gesto ou argumento
Acompanha camuflado com seus grooves abafados
a harmonia a melodia e o ritmo
É o negro balançar carregando malemolência
pela clave de fá... molejo, resiliência
quatro cordas e suas limitadas oitavas
casas cromáticas interpretando escalas
shuffle, balanço e gingado
Swingando por compassos demarcados

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