Outubro Cinza

Um corte, um risco que seja, é como um espirro
um gesto de natural de expurgo

Um corte não é uma marca

Torna-se marca quando já não serve como corte

Um talho na carne é um momento nobre

memorável; intimo

É a liquida sensação de controle, seja da dor ou do flerte com a morte

um corte não é o esboço de um fraco

É o traço na tela feito pelo único artista capaz de antecipar a peça
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Sem título

A dor é líquida e incolor
 torrente que não deságua
 escoa por entre os ossos e congela; amarga
 A dor já não é apenas fria é também alva
 cristalina; maltrata
 Não se curva a analgésicos, mensagens motivacionais
 ou ao artifício do carma.
 Ela é viva e de tão viva mata
 Trata cada qual pelo seu nome e com uma intimidade
 chorosa, porém calma
 é a pré catarse, tempestade anunciada
 a dor é a própria vida que não quer na palavra
 outra coisa, senão arma.

Passageiro

A dor já não me permite escolher palavras
O coração que me resta bate, mas falha
Tento me ater as migalhas mas a tensão é grande
O fio cede e a vida me escapa.
Quero deixar claro, não transborda, vaza!
Quem ou o que pode salvar o homem de si mesmo?
Do ridículo da existência, do vazio dos propósitos
ou da brevidade dos prazeres?
Na falta de outra evoco minha palavra preferida FUGAZ!

O PALCO

A Lâmina clama o meu nome
o aço é o preço pra silenciar as vozes, todas elas!
Até o tempo anda a me mandar recados
disse-me estar cansado de me ver adiar o fechar das cortinas...
isso sem falar do que me diz Sarte, Camus ou até o bigodudo do Nietzsche:
Tudo não passa de convenções! (cantam em coro)
dolorosas repetições! (afinal o inferno é isso)
Repetições que o aço certamente há de calar! 
(penso que haveria spoiler do Kafka, caso estivesse entre as vozes, 
mas não está)

DESTILA

Dentre todos os venenos que já provei,
dos mais doces aos amargos
impera a tua saliva que entre rabiscos e afagos
ainda me engana.
- Dentre todas as armadilhas são sim tuas artimanhas
que me selam a voz e a minha respiração
atravessam a garganta e me saltam os olhos
me roubam o sorriso e me soterram na introspecção.

NÁUSEA

Eu vomito palavras
isso sim, vômito
que palavra mais feia...
mas quem foi que disse que só existem palavras bonitas

Eu vomito filosofia
Mas tem que ser das bem baratas
porque como eu disse eu as vomito
e eu costumo vomitar com frequência

Eu também vomito traços, desenhos, rabiscos...
Mas como era de se esperar, em sua maioria sujos... 
obscenos
...Coisas do cotidiano

Mas eu não faço só expelir
na vida há mais do que se botar pra fora
Sobretudo para expurgar é preciso antes consumir
... e eu consumo
Consumo a sua gramática, sua religião, 
suas onomatopeias sexuais (gentilmente) rotuladas 
como música. Eu consumo suas imagens motivacionais 
e principalmente o seu vazio aquele nauseado, 
instalado silenciosamente no canto. 

Eu os consumo
Eu consumo você, querendo ou não...
eu e você
Por isso eu vomito e vomito tanto.

 

SUFOCO

Quantos pedidos de socorro são necessários
para resgatar um homem do próprio abismo?
Quantos deuses, preces, selfies ou livros?
Quantas juras de amor, abraços ou ofertas de amizade?
E o que dizer da arte em todo seu embuste? Sua afetação...
Pode um quadro, uma foto, melodia ou verso bordar
com nexo tão suntuoso abismo?
Quanta filosofia é necessária pra tornar ao menos suportável
todo o azedume dessa efêmera,
porém dolorosa passagem do homem pelo mundo?

Por fim vos pergunto, com a devida licença dessa barata metafísica:
Quanta vida é necessária
para que eu deixe de ver na morte o refrigério do mundo?

 

ESPECTRO

a minha alegria é falsa
tão falsa quanto posso colorir meus olhos
olhos de vidro

se o poeta é aquele que turva
as águas para que pareçam mais profundas
o que dizer de alguém que obscurece toda uma vida
enfeita o passado pra se afogar no próprio niilismo

creio hoje que todos os olhos são vidro
alguns refletem o próprio vazio
e outros tantos optam pela palidez alheia

mas enfim, vazios
ocos pela própria vagueza da existência
ou pela infindável limitação criativa
intrínseca em mim

eu voyuer da vida,
voyeur de vidro
voyeur de mim.

REVERSO

Do sabor lascivo que me embota a boca ao calor
furtivo que me ata à forca
Há um intervalo frijo à cercar roca
tecendo o fino fio dessa existência oca
/--------------/
São rajadas que me escapam pelos olhos
embrazados como dois sóis, flagelo do que vejo
Mas escondem águas mornas que não
encantam, indigno ensejo
Já não sei se sou a fúria plástica que ama o
próprio desejo ou uma criança cega desejando
tudo que vejo.

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