Tempos Modernos

Éramos felizes na nossa tristeza
tudo que veio depois aceitamos.

Como aceitamos um aperto de mão, mais um biscoito
ou um tapinha no ombro.
No começo pensamos: Não há de ser nada!
Mas com efeito, foi!
O tempo sempre encarrega-se de solidificar os nossos pesadelos
a distância, o silêncio, o vazio
Todos nós carregamos os nossos abismos
O que muda é a mochila
A dos outros parece de rodinha e as nossas com alças de corrente
Mas não há de ser nada, penso eu.
Sempre haverá com quem revezar a maldita carga

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Kessia

Talvez eu nunca tenha dito as palavras certas, não por desleixo, mas por acreditar que você sendo criança como eu, não precisasse delas para compreender o momento

Talvez eu tenha sido humano demais. Já me disseram que eu romantizo tudo, mas isso não importa, esse é um pecado que não me pesa carregar.

Talvez eu tenha visto demais nesses seus olhos FLAMEJANTES. Tenha roubado para mim alguns de seus gestos, mas porque eu não teria direito  de cambalear entre aspirações tão inocentes.

Qual criança nunca se encantou com com o FOGO e qual adulto não dormiria mais seguro tendo para si uma sentinela com os olhos em BRASA.

Talvez eu tenha me excedido, mas como já antecipei, sou humano demais e talvez tenha romantizado até o que não deva ser tocado.

Talvez eu tenha me despido demais, mas não me envergonho da minha nudez. Talvez ela roube por alguns segundos a atenção desses seus olhos de lince, e ai as palavras não ditas e os gestos postergados não mais me importarão.

Tânia, loucura encarnada!

A gente se acostuma, eu sei mas não devia.

Acostumamos com uma vida sem gentilezas ou elogios, amores de cinema e não minta para mim, eu sei que eles existem.

Acostumamos com empregos que só servem para ganhar o pão, amigos que não fazem mais que afastar a solidão e tarefas que só servem para passar o tempo.

É claro que ninguém vem ao mundo já com uma vida morna e de papelão. Essa moleza no viver é uma prescrição do tempo, ou segue-se a receita ou a vida torna-se uma aventura, e somos gentilmente educados a dispensar as aventuras.

Como adultos responsáveis nos é dado o dever de prover a solidez de uma vida previsível, e ai como já foi dito… a gente se acostuma.

Salvo eu é claro, que não quero nada que não seja quente, efêmero ou desajuizado, afinal sou louco por escolha e doido no prontuário.

Outubro Cinza

Um corte, um risco que seja, é como um espirro
um gesto de natural de expurgo

Um corte não é uma marca

Torna-se marca quando já não serve como corte

Um talho na carne é um momento nobre

memorável; intimo

É a liquida sensação de controle, seja da dor ou do flerte com a morte

um corte não é o esboço de um fraco

É o traço na tela feito pelo único artista capaz de antecipar a peça

Sem título

A dor é líquida e incolor
 torrente que não deságua
 escoa por entre os ossos e congela; amarga
 A dor já não é apenas fria é também alva
 cristalina; maltrata
 Não se curva a analgésicos, mensagens motivacionais
 ou ao artifício do carma.
 Ela é viva e de tão viva mata
 Trata cada qual pelo seu nome e com uma intimidade
 chorosa, porém calma
 é a pré catarse, tempestade anunciada
 a dor é a própria vida que não quer na palavra
 outra coisa, senão arma.

Passageiro

A dor já não me permite escolher palavras
O coração que me resta bate, mas falha
Tento me ater as migalhas mas a tensão é grande
O fio cede e a vida me escapa.
Quero deixar claro, não transborda, vaza!
Quem ou o que pode salvar o homem de si mesmo?
Do ridículo da existência, do vazio dos propósitos
ou da brevidade dos prazeres?
Na falta de outra evoco minha palavra preferida FUGAZ!

O PALCO

A Lâmina clama o meu nome
o aço é o preço pra silenciar as vozes, todas elas!
Até o tempo anda a me mandar recados
disse-me estar cansado de me ver adiar o fechar das cortinas...
isso sem falar do que me diz Sarte, Camus ou até o bigodudo do Nietzsche:
Tudo não passa de convenções! (cantam em coro)
dolorosas repetições! (afinal o inferno é isso)
Repetições que o aço certamente há de calar! 
(penso que haveria spoiler do Kafka, caso estivesse entre as vozes, 
mas não está)

DESTILA

Dentre todos os venenos que já provei,
dos mais doces aos amargos
impera a tua saliva que entre rabiscos e afagos
ainda me engana.
- Dentre todas as armadilhas são sim tuas artimanhas
que me selam a voz e a minha respiração
atravessam a garganta e me saltam os olhos
me roubam o sorriso e me soterram na introspecção.

NÁUSEA

Eu vomito palavras
isso sim, vômito
que palavra mais feia...
mas quem foi que disse que só existem palavras bonitas

Eu vomito filosofia
Mas tem que ser das bem baratas
porque como eu disse eu as vomito
e eu costumo vomitar com frequência

Eu também vomito traços, desenhos, rabiscos...
Mas como era de se esperar, em sua maioria sujos... 
obscenos
...Coisas do cotidiano

Mas eu não faço só expelir
na vida há mais do que se botar pra fora
Sobretudo para expurgar é preciso antes consumir
... e eu consumo
Consumo a sua gramática, sua religião, 
suas onomatopeias sexuais (gentilmente) rotuladas 
como música. Eu consumo suas imagens motivacionais 
e principalmente o seu vazio aquele nauseado, 
instalado silenciosamente no canto. 

Eu os consumo
Eu consumo você, querendo ou não...
eu e você
Por isso eu vomito e vomito tanto.

 

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