Meus olhos sempre carregarão águas...
Como ansiar bom desfecho em trajetória tão amarga
Sem ter onde repousar o queixo a cabeça pende...
O corpo desaba...
meus olhos sempre carregarão águas...


Há de se escrever da vida, que apesar de fria ingrata
ralhei com a dura fauna de homens tão covardes
Jamais me assentei à mesa de quem por fiel a tristeza
beijou o mal na face
Mas nada disso importa,
meus olhos sempre carregarão águas...


Seja pelo mal que causei ciente
ou mesmo quando contente, 
desfrutei da minha parte sem ver rasgado ao meu lado
que gentes carentes padecem, cotidiano malgrado
Mas nada disso importa,
meus olhos sempre carregarão águas...


No meio de toda essa moleza me pego especulando
uma vez que já é de todos conhecido
que em sina tão barata
não é a vontade de vencer que aparta de todo a mortalha
Peleja tão simplória!
É certamente mais custosa do que é realmente necessária!
É quase que como dar braçadas contra uma cachoeira
E digo isso com propriedade
Não fiado em ciências, fé ou qualquer adorno que o valha
Também não é porque me faltem espelhos 
ou que o ego já me tenha tomado
mas é que em matéria de sofrimento,
nunca me faltaram ou hão de faltar intimidades
quando mirei pela primeira vez a vida nos olhos
foi a dor quem primeiro me veio beijar as mãos
Mas nada disso importa, porque meus olhos...
meus olhos sempre carregarão águas.

 

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FAMÍLIA

Desata o nó e a corda densa
onde pende o quadro alheio a dança
Cansa...
Cessa o coro, de volta a trança
É fria a vaga labuta
É eterna a rija trança
duas das cordas me custam a estirpe
A outra carrego presa ao ventre
Sangra...

As luzes e as vozes não me pesam mais que o físico
O real é sempre mais amargo, intenso, vivo
anseio esquálido teu doce alento
para que breve seja a algoz liberdade.
Que repouse fresca ao meu lado a amarra
e eu encerre firme tão inútil batalha.

CAPITAL

Na enorme cova que a nós sepulta
da alvorada da vida ao leito de morte
opção não resta se não a fria luta
para aqueles que dela nâo herdaram a sorte

Se há quem ostente de abastado a alcunha
é porque padecem outros para lhe ornamentar as vestes
pobre o "cavaleiro da triste figura"
empatia crua a emoldurada em preces

Segue a prole a sangrar em vida
enquanto de cima vangloriam-se os porcos
mas há de bradar antes que finde-se a sina
o povo desperto, "Felicidade ou morte!"

 

BRISA

 

Devolvo a ti todo amor que possuo,
digo devolvo porque não posso dar 
o que não fiz senão herdar, 
já que não houve escolha.
Cubro-te com minhas promessas 
que embora poucas são o que tenho,
Apenas elas...
Travo comigo uma enorme batalha 
para não adorna-la com os clichês que o amor me pede, 
daqueles que todos os amantes dizem as duzias...
Para você não, você não merece menos que o inédito...
O que é metade não lhe cai bem
Você quem reescreveu meus dias de maneira terna
e que transmutou meus abismos em quietude
e minhas diligências em conquistas...
De olhos fechados repouso sobre seus braços porque
entre todas as certezas, a unica que me convém
é que de mim, teu por inteiro, 
seja feita apenas a tua vontade.

ALFA

Sentado em sua montanha sua boca calada jazia
Era ele mais um espectro que humano, o tempo o talhou assim
Havia nele muitas qualidades,mas já não fazia questão de demonstra-las.
Seu novo passatempo era a rivalidade!
Tudo que conflitasse com seu ego frágil deveria ser subjugado
Era ele agora todo mal agouro, resignação e agressividade
Repousava sisudo sobre a sua rede tecida a fios rubros (despojos)
Já não mais se atrevia a mirar o próprio reflexo,
tinha medo de que sua projeção de si mesmo não fosse
fiel a realidade que ele com tanto zelo e afinco se empenhou em construir
Vivia uma vida glutona, robusta, repleta do simples, tangível e pratico
não se despendia com conjecturas e filosofias.
Afinal era ele bruto, homem e macho!

SANGRIA

Na estrada que vazia, pedra
caminhava lento, murcho e soturno
Era ao chão a quem se valia a terra
úmido e quente o folego noturno

Na sangria matina de pé e vigilante
rasga a terra a ferro frio como quem marca o amante
conduz na valsa triste a esperança de uma raça
já que nesta dança rija a fome enfim se aparta

Seja por reflexo ou talento inato
Reconhecida seja a bravura de quem luta desde o parto
Em terra de tão variada gente e tipo
há ainda quem sangre todos os dias a viver do oficio

VORTEX

É quase impossível conter na palma das mãos
algo de natureza tão flexível quanto a realidade.
Ela se retorce em espontâneas curvas
traçando caminhos até então inimagináveis...
Obtusa!
A criatividade e a sensibilidade que podem ser vistas
por alguns como qualidade é rival atroz dessa insensível medida
Só o racional é confiável!
A beleza intrínseca do desconhecido curva-se a necessidade
de explicação, de procedência.
O real e tangível não pode ceder espaço ao abstrato
A subjetividade especuladora da filosofia cede vagarosamente
o lugar ao simples e previsível...
Ou se é estático e inerte ou precisa ser curado
A vida não pode mais mover-se,
Ou ceifa-se a metamorfose ou aceita-se o enclausuramento!

DIVINA

aproximou-se calada, sorrateira
e lançando seu dedo na superfície dos lábios
congelou quase que por eterno o momento
era feito uma fotografia
a luz esculpia seus contornos de certa forma homogênios
e dada a natureza da situação a admiração era até involuntária
mirou-se no espelho velho do seu quarto que já a muito a capturava
era toda ela ali representada por uma imagem muda,
molhada
todas as suas cores finamente acentuadas,
refletiam de forma erotizada sua inocência jovial
era ela toda humana
carregava no olhar toda a sorte de pecados
vestia nos olhos uma certa dureza que a distinguia das demais
fora desenhada pela vida
e entregava-se as casualidades como dava-se aos demais
era completamente viva, machucada e real
fora marcada por muitos nomes
prostituta, meretriz,
ou qualquer outro nome que venha banhado na acidez da moral
mas não passavam de rótulos, disso ela sabia
tudo pra ela era fugaz,
tudo era apenas rotina
até a sua beleza, trivial

LIDA

Trazia no corpo certa marca dura...
A vida.
E que mesmo manchada sangra, sofrida
Passa desapercebida e tropega a lida,
com a falsa missão de alimentar
E que mesmo estando fraco ostenta,
nas mãos cansadas a ferramenta
que não faz senão enriquecer as mãos de quem tudo já possui.
E que esta injusta roda, a viva
encarregue-se dessa gente fraca, omissa
e devolva a cada qual o que melhor lhes caber.

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