All hail the Crimson King

 

Eu vejo a torre e toda a escuridão que a rodeia
Eu posso ver.
Eu vejo a rosa e um par de olhos pesados sobre ela
São os olhos vermelhos do rei.
Eles cortam a escuridão como se a absorvessem.
Do alto da torre eu observo o rei e ele é rubro
Eu vejo a morte tecendo a sua teia por 
todos os andares da torre
Eu posso ver.
Vejo como os demônios que à habitam, 
saciam a sua lascividade
Eles possuem um código entre si, 
uma ética, uma bússola moral que dissimuladamente 
aponta para os seus apetites, mas eles não sabem disso.
Só eu posso ver.
Vejo a torre pender vacilante 
a mercê dos feixes que ainda lhe restam
Vejo a rosa que resplandece rubra como o rei, 
mas já quase vencida. 
Percebo que os mesmos porcos que se alimentam dela 
se liquefariam no mesmo instante em que ela tombasse
Eu vejo o frágil e tênue equilíbrio
que sustenta a nossa "metafísica”, eu vejo...
Eu posso ver!
E sei que apenas ao caos posso entregar a nossa sorte...
Todos saúdam o Rei Rubro!
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Minha Escuridão

Ontem pela manhã eu cavava um abismo
Não um desses que se espera que em algum momento
se possa alcançar o fim.
Era uma cratera, bela pela magnitude mas nada além
meu abismo particular

Ao anoitecer meu corpo já era o próprio abismo
O fundo dos meus olhos refletia
toda a grandeza do vazio que cabe em mim
Tudo era escuridão e a vida como a conheci 
misturava-se a noite

Hoje pela manhã quando acordei
meu corpo pendia sobre um abismo
Não é como seu eu estivesse lá
Eu estava de fato,
todo eu pendurado e prestes a cair
Quase me arrebentava em conjecturas
sobre como fui parar ali
como cavava, se cavava e porque?

Agora meu corpo despenca pelos ares
enquanto o meu espírito mortificado pela catarse
rodopia em uma enganosa sensação de liberdade
não há nada de livre em cair
Meu corpo cai e não exerço qualquer influência
sobre a gravidade que me subjuga

Fui o homem dos abismos, os conheci de muitas maneiras
e ainda assim me encerro sem nada de proveitoso saber 
a respeito nem das quedas, das trevas ou de mim.
Meus olhos sempre carregarão águas...
Como ansiar bom desfecho em trajetória tão amarga
Sem ter onde repousar o queixo a cabeça pende...
O corpo desaba...
meus olhos sempre carregarão águas...


Há de se escrever da vida, que apesar de fria ingrata
ralhei com a dura fauna de homens tão covardes
Jamais me assentei à mesa de quem por fiel a tristeza
beijou o mal na face
Mas nada disso importa,
meus olhos sempre carregarão águas...


Seja pelo mal que causei ciente
ou mesmo quando contente, 
desfrutei da minha parte sem ver rasgado ao meu lado
que gentes carentes padecem, cotidiano malgrado
Mas nada disso importa,
meus olhos sempre carregarão águas...


No meio de toda essa moleza me pego especulando
uma vez que já é de todos conhecido
que em sina tão barata
não é a vontade de vencer que aparta de todo a mortalha
Peleja tão simplória!
É certamente mais custosa do que é realmente necessária!
É quase que como dar braçadas contra uma cachoeira
E digo isso com propriedade
Não fiado em ciências, fé ou qualquer adorno que o valha
Também não é porque me faltem espelhos 
ou que o ego já me tenha tomado
mas é que em matéria de sofrimento,
nunca me faltaram ou hão de faltar intimidades
quando mirei pela primeira vez a vida nos olhos
foi a dor quem primeiro me veio beijar as mãos
Mas nada disso importa, porque meus olhos...
meus olhos sempre carregarão águas.

 

FAMÍLIA

Desata o nó e a corda densa
onde pende o quadro alheio a dança
Cansa...
Cessa o coro, de volta a trança
É fria a vaga labuta
É eterna a rija trança
duas das cordas me custam a estirpe
A outra carrego presa ao ventre
Sangra...

As luzes e as vozes não me pesam mais que o físico
O real é sempre mais amargo, intenso, vivo
anseio esquálido teu doce alento
para que breve seja a algoz liberdade.
Que repouse fresca ao meu lado a amarra
e eu encerre firme tão inútil batalha.

CAPITAL

Na enorme cova que a nós sepulta
da alvorada da vida ao leito de morte
opção não resta se não a fria luta
para aqueles que dela nâo herdaram a sorte

Se há quem ostente de abastado a alcunha
é porque padecem outros para lhe ornamentar as vestes
pobre o "cavaleiro da triste figura"
empatia crua a emoldurada em preces

Segue a prole a sangrar em vida
enquanto de cima vangloriam-se os porcos
mas há de bradar antes que finde-se a sina
o povo desperto, "Felicidade ou morte!"

 

BRISA

 

Devolvo a ti todo amor que possuo,
digo devolvo porque não posso dar 
o que não fiz senão herdar, 
já que não houve escolha.
Cubro-te com minhas promessas 
que embora poucas são o que tenho,
Apenas elas...
Travo comigo uma enorme batalha 
para não adorna-la com os clichês que o amor me pede, 
daqueles que todos os amantes dizem as duzias...
Para você não, você não merece menos que o inédito...
O que é metade não lhe cai bem
Você quem reescreveu meus dias de maneira terna
e que transmutou meus abismos em quietude
e minhas diligências em conquistas...
De olhos fechados repouso sobre seus braços porque
entre todas as certezas, a unica que me convém
é que de mim, teu por inteiro, 
seja feita apenas a tua vontade.

ALFA

Sentado em sua montanha sua boca calada jazia
Era ele mais um espectro que humano, o tempo o talhou assim
Havia nele muitas qualidades,mas já não fazia questão de demonstra-las.
Seu novo passatempo era a rivalidade!
Tudo que conflitasse com seu ego frágil deveria ser subjugado
Era ele agora todo mal agouro, resignação e agressividade
Repousava sisudo sobre a sua rede tecida a fios rubros (despojos)
Já não mais se atrevia a mirar o próprio reflexo,
tinha medo de que sua projeção de si mesmo não fosse
fiel a realidade que ele com tanto zelo e afinco se empenhou em construir
Vivia uma vida glutona, robusta, repleta do simples, tangível e pratico
não se despendia com conjecturas e filosofias.
Afinal era ele bruto, homem e macho!

SANGRIA

Na estrada que vazia, pedra
caminhava lento, murcho e soturno
Era ao chão a quem se valia a terra
úmido e quente o folego noturno

Na sangria matina de pé e vigilante
rasga a terra a ferro frio como quem marca o amante
conduz na valsa triste a esperança de uma raça
já que nesta dança rija a fome enfim se aparta

Seja por reflexo ou talento inato
Reconhecida seja a bravura de quem luta desde o parto
Em terra de tão variada gente e tipo
há ainda quem sangre todos os dias a viver do oficio

VORTEX

É quase impossível conter na palma das mãos
algo de natureza tão flexível quanto a realidade.
Ela se retorce em espontâneas curvas
traçando caminhos até então inimagináveis...
Obtusa!
A criatividade e a sensibilidade que podem ser vistas
por alguns como qualidade é rival atroz dessa insensível medida
Só o racional é confiável!
A beleza intrínseca do desconhecido curva-se a necessidade
de explicação, de procedência.
O real e tangível não pode ceder espaço ao abstrato
A subjetividade especuladora da filosofia cede vagarosamente
o lugar ao simples e previsível...
Ou se é estático e inerte ou precisa ser curado
A vida não pode mais mover-se,
Ou ceifa-se a metamorfose ou aceita-se o enclausuramento!

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