Minha Escuridão

Ontem pela manhã eu cavava um abismo
Não um desses que se espera que em algum momento
se possa alcançar o fim.
Era uma cratera, bela pela magnitude mas nada além
meu abismo particular

Ao anoitecer meu corpo já era o próprio abismo
O fundo dos meus olhos refletia
toda a grandeza do vazio que cabe em mim
Tudo era escuridão e a vida como a conheci 
misturava-se a noite

Hoje pela manhã quando acordei
meu corpo pendia sobre um abismo
Não é como seu eu estivesse lá
Eu estava de fato,
todo eu pendurado e prestes a cair
Quase me arrebentava em conjecturas
sobre como fui parar ali
como cavava, se cavava e porque?

Agora meu corpo despenca pelos ares
enquanto o meu espírito mortificado pela catarse
rodopia em uma enganosa sensação de liberdade
não há nada de livre em cair
Meu corpo cai e não exerço qualquer influência
sobre a gravidade que me subjuga

Fui o homem dos abismos, os conheci de muitas maneiras
e ainda assim me encerro sem nada de proveitoso saber 
a respeito nem das quedas, das trevas ou de mim.
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